28 Junho 2008



Carol Custódio, Earth Planet.
http://www.flickr.com/photos/carolcustodio/2619468940

03 Junho 2008

O café que o tempo não esfria



Donaldson Faithless Pickhunter, um funcionário público de Bristol, Avon, Inglaterra, julgava morar sozinho há oito anos, quando divorciou-se de Glaucia Megerah Greensburroughs. Mas, num surto de lucidez, horrorizado, descobre que a ex-esposa está em sua casa e que jamais saiu dela desde a separação.

Os dois discutem, se ofendem, brigam. Até que Donaldson, com uma capacidade de iniciativa invulgar para um niilista crônico, consegue convencê-la a ir embora para sempre de sua casa e de sua vida.

Donaldson, interiormente, chora por se sentir um idota desprezado. E conclui pra si mesmo que a vida não passa de um vale de lágrimas. Ele está sozinho na cozinha olhando para o relógio de parede. O tempo, pensa ele, é a única coisa que não podemos controlar.

Pela porta, ainda escancarada pela saída de Glaucia, entra, silenciosamente, Amanda Porsche, a veterinária de Vanessa, a gata siamesa de Donaldson. Ele ama Amanda. Mas Amanda sempre lhe disse que assim como ela esperaria por ele, ele devia esperar por ela, para que o tempo, no momento certo, os unisse. Donald respeitava isso por achar uma idéia muito bonitinha. Mas ficava puto da cara.

Com o olhar ao mesmo tempo compreensivo e severo, Amanda cumprimentou timidamente o consternado Donaldson. Numa seqüencia muda de atos mecânicos e tristes, ele prepara um café para ela. Os dois sentam à mesa. Donaldson não quer olhar para Amanda pois tem vergonha de demonstrar os olhos úmidos e o semblante sofrido. No fundo, ele se sente um otário. E ficam ali os dois, sem nada dizer, ouvindo apenas o tic-tac do relógio da cozinha.

Amanda Porsche quebra o silêncio e lhe diz com franqueza:

"como tu é demorado, Roger... levou oito anos pra tirar a tua esposa de casa... e três anos pra arrumar a luz do banheiro... como conseguia viver assim ? um abajur pendurado no teto, com o fio ligado na tomada... era bonito e exótico até... mas por demais preguiçoso, não acha ? eu sei... eu sei que arrumar a fiação interna é um saco... mas enfim, você mesmo disse que o que molda o nosso destino não são os nossos atos: é a nossa preguiça... eu até usei esta frase no meu nick do msn."

"tu, Amanda ? dizendo que eu sou demorado ? tu tá há dois anos tomando café comigo... e esse café deve estar frio."

"não, Roger... ele ainda está quente, eu te prometo."

02 Junho 2008

Eu gostaria de amar novamente

Mas isso é apenas um desejo que se dissolve na solução da distância. E meus amores insolúveis me deram tanta decepção e mágoa que, de fato, só lembro das dores. Dizia-me, amargamente, a dama do tempo Lady Sometimes:

"O passado é o inferno dos sentimentos, o futuro é o paraíso da esperança, o presente é o purgatório da indiferença."

06 Maio 2008

Perto do coração da mente



O Dr. Hudson Ülrich, um afamado parapsicólogo austríaco, tem sua licença profissional cassada após hipnotizar o chefe do departamento financeiro de uma fábrica de isopor, fazendo-o se comportar como um esquilo e não conseguindo reverter o processo.

Mas, clandestinamente, continua atendendo sua paciente predileta: Sabine W.

Sabine W. é jovem, religiosa e conservadora. Durante uma sessão de hipnose, admite guardar com sofrimento o desejo de transar com o Dr. Hudson debaixo de uma cachoeira de chope.

O Dr. Hudson apaixona-se por ela.

Graças ao tratamento, Sabine W. torna-se mais confiante, opinativa e sedutora. E joga fora toda sua coleção de discos da Mara Maravilha passando a apreciar as músicas de Kurt Cobain.

No fim, casam-se. E para demonstrar confiança, o Dr. Hudson deixa que Sabine W. o hipnotize. Em estado de transe, ele diz:

- Sabine... eu... eu amei você desde o comecinho... mas... depois que você, durante aquele blackout em Viena, tirou "Smells Like Teen Spirit" no violão, eu pude perceber que a minha vida jamais teria sentido se você não estivesse, para sempre, perto de mim...

01 Maio 2008

O Escudo de Clibes



Edwin Coldcharm Clibes, um camponês culto e irônico do País de Gales, depois de experiências afetivamente traumáticas, passa a usar trajes de mergulhador. Sua terapeuta, a Sra. Margareth Portburn Wake, com a rispidez de costume, chama sua atenção:

- Tira isso, Roger ! Que ridículo ! Seu medo é brega, ok ? O fato de ter levado coice de três vacas em sua vida não significa que todas as mulheres farão o mesmo.

- Sinceramente, Sra. Wake, está propondo uma solução assaz previsível para essa trama, eu diria. Meu problema deve ser muito mais grave do que "apenas medo". Afinal, apesar de ser um camponês teoricamente ingênuo e vilipendiado pelas vacas, eu sou profundo, artístico e...

- Ai, que saco ! Esse tipo de discurso me faz ter vontade de largar a minha profissão, sabia ? E eu nem tchum, Roger... quer ficar assim, fica ! Ninguém vai se importar. Se quer ser o ator principal do, como você disse, mesmo ? Ah, sim, do "pântano romântico" que se tornou sua vida, faça bom espetáculo ! Tem platéia pra tudo nesse mundo. Até pra papel ridículo. E acabou nossa sessão de hoje. Agora vou atender uma paciente intelectualmente inquieta e sexualmente vulnerável. Essa, sim, vale a pena !

- Hum... aquela que eu vi na sala de espera ? Uau... baita gata... apresenta ela pra mim ?

- Nem pensar, Roger ! Acha que vou apresentar para uma das minhas pacientes preferidas uma cara fantasiado de homem do fundo do mar ?

- Ok, por ela eu tiro essa roupa pesada e triste. Reabilito minha confiança e alegria de viver. Que tal ? E até fico nu. E danço charleston !

- Ahahaha, com tudo balançando ? Acho que ela vai sair correndo !

- Viu ? Quando me encorajo à exposição você não me estimula.

- Até quinta que vem, Roger.

Meses depois, a Sra. Margareth, após intensas negociações, apresenta Magdey Burning Tottenbridge, sua outra paciente, a Edwin. E para surpresa de todos, os dois, apesar de carregarem um duro passado de frustrações, apaixonam-se.

Decidem, com medo, mas com convicção, dividir suas vidas e destinos num pequeno apartamento no centro de Cardiff. E a rica simplicidade do cotidiano deste amor tem o semblante e o ânimo da coragem.

Quando completam um ano de namoro, Edwin surpreende Magdey e, finalmente, tira sua roupa de escafandrista:

- Mas... mas Roger... eu... eu não quero que faça isso por mim, mas por você. Eu... eu quero que se sinta bem. Se quer usar sua roupinha de mergulhador, eu deixo, você sabe que eu aceitei isso desde o início.

- Eu faço por você, sim, Magdey. Porque descobri que todo sacrifício que eu fizer por você será bom pra mim. Não quero mais essa roupa. Minha pele merece sentir o seu carinho. Meu coração merece ser escutado. E eu quero que você veja eu dançar charleston.

Um dia, diante do espelho do banheiro, eles olham o reflexo nítido do casal:

- Olha, Roger... nós ! Nus !

- Oi Magdey, eu sou o Roger, muito prazer !

- Ahahah ! Oi Roger, sou a Magdey, muito prazer !

- Eu amo você, Magdey...

A cena final do filme é na sala de estar do apartamento.
Edwin dançando charleston, nu.
Livre, como nunca.
E Magdey rindo, como nunca.
Feliz.

E não saiu correndo.

29 Abril 2008

Eu não me reconheceria diante dela



Dalton Lemming Gotfried é coordenador de artes cênicas do Departamento de Águas de Springfield, Illinois. Com a debacle de sua capacidade visual ele é forçado a usar óculos e se sente muito mal com isso. Como conseqüência passa a compor peças de teatro depressivas e com final triste.

Mas é convencido por Laya Divine Montgomery, uma atriz jovem, peituda, inteligente e romântica, a mudar o rumo de suas idéias dramáticas:

"suas peças, pra mim, são como você, Roger... são feias mas eu nem tchum... gosto mesmo assim... mas sabe ? eu gostaria que fizesse pelo menos uma pecinha, uma só, com final feliz... pode ? e... e porque você nunca sorri, hein ? que saco."

Laya convence Dalton a modificar o andamento da peça que estavam ensaiando, chamada "A angústia invencível dos gnus". Era a história de uma gnuzinha muito bonitinha e sexy que vivia na Gâmbia e era apaixonada por um gnu que vivia no Gabão. Eles se conheceram pela internet. Ela estava muito angustiada porque seu saxofone amassou. Além disso estava com dores muito chatas por causa de sua endometriose.

A idéia de Dalton era fazer a história só piorar daí em diante, e terminar com os dois gnus contraindo uma doença neurológica devido ao desânimo existencial, até morrerem dolorosamente sozinhos.

Mas após uma noite de amor com Laya, Dalton acorda legal de manhã. E reescreve a parte final da peça. A gnuzinha se curou da endometriose graças a um gnu guru com poderes afro-espirituais. Além disso, ela ganhou na loteria federal da Gâmbia uma substancial quantia em dinheiro e convidou seu amado gnu do Gabão a fazer uma viagem romântica.

Os dois foram visitar o Parque de Yellowstone e a gnuzinha adorou ver seu amante com a fantasia do Zé Colmeia. Transou com ele ali mesmo. E ficaram os dois se amando e vendo os geisers estourarem com fervor, fazendo o solo tremer, a temperatura aquecer e o sexo entre eles ficar ainda mais espetacular.

A peça foi o primeiro sucesso dos 30 anos de carreira de Dalton. E, após os aplausos no dia da estréia, Laya, cheia de ternura nos olhos, lhe faz uma proposta:

"Eu quero transar com você enquanto olhamos os geisers... que tal ? mas sem esses óculos, tá Roger ?"

25 Abril 2008

Além do amor eterno



Calixto Petrescu, um artista plástico da Romênia, após os desastres da sua vida amorosa, conhece, via internete, a americana Samantha Courtney, uma ativista em prol dos esquilos. Os dois apaixonam-se on line, mas nunca se encontram. Samantha não tem dinheiro para viajar. Calixto, além de não ter grana, está preso, pois desde sua infância se dedicou à construção de um muro indevassável ao redor do seu lar. E agora não consegue sair.

Por curiosisade do destino, e por conveniência dramática, ambos morrem na mesma semana, de ataque cardíaco.

Samantha, por ser uma mulher dinâmica, dedicada, corajosa e por ter enfrentado milhares de tpm, vai para "Paradise Is Here", um lugar lindo, iluminado e feliz, cheio de criancinhas vestidas de anjo, belíssimos parques e pessoas sorridentes falando o jargão espírita.

Mas Calixto paga caro por sua vida egoísta, reclusa e inútil. É condenado a ficar em "Valley Of The Shadows", um lugar cheio de escuridão, horror, ódio e fogueiras, cujo silêncio fúnebre é interrompido por gritos de dor e angústia emitidos pelos sofredores habitantes do local.

Meses depois, Samantha, com a permissão do Irmão André, vai buscar Calixto:

"Olha Roger, eu sei da sua revolta. Eu compreendo suas razões. Eu amo você, poxa ! Mas... seu lugar não é aqui. Eu conheço a ternura do seu coração. Venha comigo ! Tenho um lindo lugar para vivermos em Paradise Is Here !"

"Não ! Não, Samantha ! Eu não quero ir para aquele céu juca onde você está ! Lá vocês caminham dando pulinhos felizes e escutam músicas da Enya. Seu lugar não é lá ! Vem pra cá. Valley Of The Shadows é super legal ! Tem muito sexo safado, arte alternativa e gente da pesada, saca ? E eu fiquei tri amigo do Kurt Cobain ! Vou apresentá-lo. Hey Kurt, come here !"

"Pára, Roger ! Eu não quero conhecer esse babaca do Kurt."


Mas no fim ficam juntos. Samantha convence Calixto a não ficar em Valley Of The Shadows e Calixto convence Samantha a não ficar em Paradise Is Here. Os dois partem, sozinhos e unidos, para um recanto só deles. Um lugar distante e simples. Sossegado e limpo. Afetivo e bonito. Sem muros e sem tpm.

Chamaram-no de "Nosso Amor".

16 Março 2008

O homem do cérebro de três minutos



Tradl McKenzie, um bom rapaz britânico, devido à grave e rara doença neurológica, tem sua memória completamente apagada a cada três minutos. Seu triste cotidiano é repleto de recomeços abruptos, isolamentos emocionais, ignorância plena e anotações em papeizinhos.

Tenta elucidar seu drama conversando com Jelly Keal Nottbourgh, a mulher que nunca desistiu de amá-lo, mesmo ele esquecendo dela centenas de vezes por dia:

- Roger, acho que sua amnésia é fuga, apenas fuga...

- ué ? "Roger" ? mas meu nome não é "Tradl" ? tá aqui anotado no papelzinho.

- Roger, você esquece de tudo para não assumir nada... e principalmente para não assumir o amor...

- será, Jelly Keal ? é Jelly Keal o seu nome, né ? tá escrito aqui no papelzinho: "Jelly Keal, a mulher tola que ama você... está acima do peso, ok ? mas vai emagrecer porque começou na academia".

- sim, fui eu que escrevi... eu sou a Jelly Keal, Roger... a gente se conhece do tempo de escola... desde que me apaixonei por você começaram essas suas crises de amnésia... eu estou a ponto de desistir, saca ? não aguento mais tanta dedicação sem recompensa... e... sabe, Roger... já que você não muda, vou ficar com Slovodan Plekovich, lembra dele ? aquele eslavo que usa tiara no cabelo... ah, claro que não lembra, né ? que saco !

- mas... como posso avaliar a mim mesmo se eu me conheço há menos de três minutos ? ok, eu até entendo a sua situação... amar um homem tão desatento... mas... poxa, Jelly Keal... não deve ser pior que namorar um cara que usa tiara no cabelo...

- Roger... eu gosto de você... mas... Roger... Roger ?

- ãhn ?

- Roger...

- que lugar é esse ? quem é você ?

- Roger sou eu, a Jelly Keal... e eu... eu amo você, Roger...

- como você é bonita...

11 Março 2008

O livro de amor das flores



Na propriedade da Sra. Torrence Gilmore, no distrito de Dibton, condado de Hampshire, vive um girassol chamado Henrik Gottard Cagney. Sensível e deprimido, ele é um girassol desorientado e cabisbaixo. Porque nunca há sol em Dibton, Hampshire.

Mas a Sra, Torrence gosta de Cagney. Cuida-o com dedicação e ternura. Nos momentos de maior intimidade e confiança, recita seus poemas secretos para ele e até lhe faz confissões do fundo do coração. Cagney ficou muito impressionado quando ela, logo após separar-se do marido, com profunda desesperança nos olhos, lhe disse que "o amor é o Papai Noel dos sentimentos".

Então a Sra. Torrence ganha, de um pretendente, uma pequena tulipa vermelha de aspecto elegante e lascivo. O nome dela é Lindsay Padova Capacci. Comovida com a situação de seu girassol desocupado, a Sra. Torrence coloca a tulipa Lindsay ao lado de Cagney. As duas flores, rapidamente, se entendem. Lindsay gosta dos poemas de Cagney. Ele adora o intelecto inquieto dela. E no início do outono, Cagney confidencia à Sra. Torrence:

- Ela é o sol que nunca tive. Agora tenho para quem olhar. Será impossível eu esquecer do dia em que vi Lindsay pela primeira vez. Ela me cumprimentou, tímida e linda. Olhou-me como ninguém. Nunca estive tão assustado e iluminado. E quando um rápido vento irrompeu o quintal, balançando suas pétalas delicadas e expondo sua doce fragilidade, pude perceber que a minha vida jamais teria sentido se Lindsay Padova Capacci não estivesse, para sempre, do meu lado.

Durante o mês de outubro, Cagney e Lindsay vivem o romance mais intenso de suas vidas. Confiante e apaixonado, Cagney começa a escrever um livro. E sente que seu texto, antes tão frouxo e melodramático, agora é mais veraz e vigoroso. Lindsay tem temperamento instável e sentimentos confusos. Mas crê estar amando. E olhando para eles, a Sra. Torrence Gilmore chega a pensar que não existem flores mais felizes em toda a Inglaterra.

Mas ao chegar novembro, Lindsay conhece Doug Gottlieb, um gerânio vulgar e sedutor. Impulsiva e deslumbrada, Lindsay apaixona-se por Doug. Cagney desespera-se:

- Lindsay, eu não acredito! O gerânio Doug é um tremendo bagaceiro! Pode perguntar para as dálias, para as orquídeas, para as hortências, para todas as flores deste quintal! Ele já paquerou todas elas! É um conquistador cafona. Nem os lírios têm fama tão ruim! Como pode cair na conversa dele? Por que vocês, tulipas, gostam tanto desse tipo de sujeito?

- Cagney... eu... eu gosto dele, ok? Não me peça pra explicar isso. Ele me estimula. Ele é envolvente. E... ele beija muito bem. Você teria que ser uma tulipa para me entender. Eu adoro você Cagney, e confio no seu potencial. Mas você é tão contemplativo e auto-indulgente. Não tome isso como uma crítica pessoal, ok? Mas o seu narcisismo me cansa. Doug gosta mais da vida do que você. Ele é o tipo do gerânio que iria até minha casa, enfrentaria o meu pai e me levaria embora na garupa de sua moto. E ele me incentiva a ser atriz. Você sabe que este sempre foi o meu maior sonho. Eu não quero ser coadjuvante do seu ego, Cagney. Quero ser a protagonista da minha vida.

- Então... boa sorte na sua carreira, Lindsay.


Cagney suplica à Sra. Torrence que o coloque no outro lado do jardim, longe de todas as flores e, especialmente, de Lindsay. A Sra. Torrence obedece, pois reconhece a dor e a necessidade de isolamento do seu girassol. Inacessível e inerte, Cagney enfrenta o duro inverno de Dibton em estado, dramaticamente, vegetativo. Nem parece que faz parte de um alegre jardim do sul do Reino Unido e sim de uma melancólica floresta petrificada.

Quando chega a primavera, a Sra. Torrence coloca o vaso de Lindsay do lado de Cagney. E pede ao girassol que a ouça. A tulipa está abatida e sua beleza é mais madura. O reencontro dos dois é um buquê de mágoas e arrependimentos:

- Você tinha razão, Cagney. O gerânio Doug é um canalha. Como fui ingênua! Eu daria todas as minhas pétalas para esquecer o papel idiota que fiz.

- De nada adianta esquecer, Lindsay. No passado sempre somos idiotas. E no presente também somos idiotas, mas ainda não sabemos.

- Sei que não fui muito correta com você, Cagney. Mas não vim em busca de seu perdão. Eu não tenho direito de ser perdoada. Pedi à Sra. Torrence que me trouxesse aqui porque quero me despedir. A floricultura Garden Trust me contratou. Vou embora hoje mesmo. Sinceramente, eu gostaria muito de viver de novo aquele outubro que tivemos. Acho que nunca estive tão feliz. Mas, você sabe, a Garden Trust é a principal floricultura de Hampshire. Será a grande oportunidade da minha carreira.

- A estufa da Garden Trust é um lugar frio, competitivo e brega, Lindsay. Não vá!

- Como você mesmo disse, Cagney, no presente somos idiotas mas ainda não sabemos.

- Lindsay... fique comigo... eu... eu amo você...

- E eu sempre amarei você, Cagney. Mas preciso ir.


O caule de Cagney curva-se. E suas pétalas cansadas miram um chão sem fundo. Nem Van Gogh conseguiria expor tanta tristeza num girassol.

- Ó, Lindsay. O livro que escrevi durante o inverno. É sobre nós. Chama-se "O livro de amor das flores". É para você. Leve-o.

- Eu... eu não posso aceitar... não me odeie, Cagney.

- De que me adianta odiar? De que me adianta amar? De que me adianta o nada, se a distância amarga vencerá a esperança mas não a lembrança? De que me adianta desejar sua vida se a vida aos poucos se dissipa em mágoas? De que me adianta despejar palavras se não há palavras que não foram ditas? Tudo está escrito. O livro de amor das flores viu nossos futuros todos. Os que deram certo, os que deram errado. Só ficaram restos de um passado belo e memórias póstumas de um amor vencido nas páginas gastas de um capítulo antigo. Somos e sempre seremos apenas um futuro. Eu queria poder reler e entender este livro. Mas está escuro.

- Não, Cagney. Está tudo muito claro. Mas seu céu está nublado. Sempre esteve.

- Lindsay, você é o prefácio de tudo que tem significado pra mim. E agora? Livro-me de mim ou de você? No princípio ou no destino, o livro de amor das flores será sempre seu.

- Não, Cagney. O livro de amor das flores é seu. Eu preciso ir. Adeus.

12 Fevereiro 2008

Os pingüins não sabem voar



A paixão entre o sensível e dramático pingüim "Giordano Cachapuz", auxiliar de farmacêutico em Ketchikan, Alaska, onde vive com sua gata siamesa "Maghat", e a belíssima e romântica pingüinzinha "Calíope Myrna", professora de pingüins crianças em Cambridge Bay, Canadá.

No fim, após muito sacrifício, os dois lutam bravamente contra os medos que congelam suas esperanças. E superando a inútil e fria distância que os separa, encontram-se, gloriosamente, em Qaqortoq, Groenlândia.

Vendo Calíope Myrna e seu corpo fusiforme, suas asas atrofiadas e suas penas impermeabilizadas através da secrecção de óleos cheirosos e eróticos, Giordano Cachapuz percebeu que jamais poderia ficar, um só dia, longe dela:

"você é a ave da minha vida, Calíope..."

"vem, Roger ! vamos deslizar ! traz a Morgana !"

31 Janeiro 2008

As Camilles partiram



Roger Jones, um escritor britânico, após o retumbante fracasso de seu último livro, o ensaio poético "Meu Sagrado Coração Despedaçado e Outras Catástrofes", recebeu em sua casa a visita de uma antiga paixão: a temperamental, ciumenta, afetiva e macia atriz italiana Camille Mionna, que estava de viagem marcada para Hollywood, onde filmaria com um diretor famoso.

Durante semanas viveram uma paixão verdadeira e finita. Até que um incidente precipitasse a dor inevitável que está presente no destino de todas as historias do gato siamês. Na cozinha de seu apartamento, Roger olhou nos olhos de Camille Mionna e disparou:

- Case comigo...

Neste instante, um dos animais de estimação do frustrado escritor, a temperamental, ciumenta, afetiva e macia gata preta Camille (que tinha esse nome em homenagem à atriz), transformou-se numa terrível e gigantesca pantera negra, gorda, forte e selvagem, exibindo suas garras pontiagudas e ríspidas, seus dentes brancos e agressivos e seus olhos amarelos e assassinos. Num surto de violência sem pudor atacou seu dono.

Roger Jones foi hospitalizado em estado grave. E ficou muito abatido, principalmente porque nenhum jornal noticiou o fato. No leito do quarto 21 do hospital, seu semblante transmitia dor e abandono. Camille Mionna foi visitá-lo. Ela estava preocupada e apertada:

- Roger ? Roger... você está bem ?

- Camille... oh... minha princesa... que surpresa... eu... eu acho que eu... eu vou morrer...

- Coitadinho... está todo arranhado ! A sua gata se transformou num monstro ! Não consigo entender ! Ela era tão querida, estava sempre com a gente. Sentava no meu colo, dormia em cima da minha bunda. Tão querida. Daí teve aquele ataque, aquela transformação. Ela ficou enorme e psicopata ! Ok, eu sei que ela era complicadinha “como uma atriz italiana”, você disse. Era exigente, faminta e exclusivista. E vomitou no seu edredom branco, lembra ? Que saco, né Roger ? Eu passei o dia limpando a mancha que ficou. E a gente perdeu aquele filme que tava passando no cinema.

- Onde está a gata Camille ?

- Eu falei com a sua irmã. A gata Camille foi morar com ela.

- Oh... eu... eu ficarei com saudade da gata Camille !

- Eu também, Roger. Ela era tão intensa.

- Ai, ai, ai... o que será de mim sem as minhas Camilles ?

- Ah Roger... não fique triste. Você ficará bem. E... Roger... eu... eu preciso ir. Meu avião sai daqui a pouco para Los Angeles. Eu queria ficar, você sabe. Mas esta é uma oportunidade muito importante para a minha carreira.

- Sei... vai acabar se casando com o Kevin Costner... aquele baita juca...

- Ahahahahah, pára Roger !

- Camille. O que será do meu coração ? Que dias maravilhosos tive. Mas agora você deixará de ser minha felicidade para tornar-se minha princesa para sempre.

- Roger... um dia eu volto.

- Camille... o seu charme estético e seu corpo quente preencheram o espaço das minhas expectativas de amor. Em cada olhar seu eu vi um adeus. A tristeza só não foi maior do que a minha alegria. Mas o tempo é meu algoz. E a paixão é a feroz imperatriz da minha vontade. Eu amo você...

- Roger... eu...

- Eu amo você, Camille...

- Roger... eu... eu...

- Diga que me ama... para que meu coração morra feliz...

- Roger...

- Diga... diga que me ama...

- Roger... eu tô xixi...

- Ãhn ?

- Eu... eu já volto...


Mas quando voltou era tarde. Roger Jones estava cercado pela equipe médica. A enfermeira, com um olhar triste e poético, voltou-se para Camille Mionna e informou:

- Ele morreu do coração...


(o desenho é da Micheli)

29 Janeiro 2008

O cansado homem das montanhas



Após passar três anos nas montanhas, esgotado física e emocionalmente, Roger olha melodramaticamente para os olhos azuis da sua fiel gata siamesa e decide:

- Vamos voltar para casa, Morgana.

***

Roger Harold Barrel, um poeta londrino perseguido pelos críticos, que o chamam de “o Pelé do dramalhão”, ao se deparar com o fracasso de seu último livro, "Meu coração despedaçado e outras catástrofes", decidiu, sem muito pensar, sair de casa e tornar-se um andarilho solitário na região montanhosa de Strugglestroll Valley, levando consigo suas memórias e sua gata Morgana. E no primeiro dia de andanças escreveu em seu diário:

"Que dizer, minha querida Morgana,
Desta dor desumana que subiu a montanha?
Não... o que eu escrevo não tem importância
Nem mais minha infância tem um coração vivo
Só você, gata Morgana, sabe que o motivo
Do isolamento a mim imposto como um castigo
É o tormento antigo que eu levo comigo:
O amor que sinto por Karina Polyanna..."


Karina Polyanna é a vizinha de Roger. Atriz, temperamental e frágil. Ele sempre a amou com sinceridade e persistência. Uma afinidade carinhosa os unia. Mas Karina era melancólica e instável. Ora o amava, ora desinteressava-se. Tiveram enfim um breve namoro quando visitaram Southampton e ficaram no apartamento de um amigo de Karina, o bonitão ator Terry McGuire, por quem, enfim, Karina se apaixonou de verdade.

Karina e Terry casaram-se e foram morar no apartamento de Karina, em frente ao apartamento de Roger. Mesmo não sendo convidado para o casamento, Roger aceitou a sugestão de Karina de que fossem bons amigos e bons vizinhos, Mas na verdade ele tornou-se distante, apático e desanimado. Rancoroso, na opinião de Karina. Mas ela continuava simpática com ele. Às vezes, de suas janelas, trocavam olhares tristes.

Terry foi filmar no exterior e ficou fora durante semanas. Karina sentia-se carente, confusa e fumava muito. Voltou a ter uma convivência com Roger, mas sempre cuidando para que tal aproximação não ultrapassasse os limites de uma amizade saudável. E quando pela última vez Roger falou com Karina, ambos estavam tristes e perdidos:

- Eu te amo, Karina. Você sabe disso. E não te peço nada... mas... mas eu te amo.

- Roger... nós não podemos viver como bons amigos? Sei lá. Ver filmes, conversar sobre livros, teatro. Sair um pouco, ir dançar. Ah, você não gosta de dançar, né? Aliás, você não gosta de nada! Que chatinho você é, eh eh eh...

- Eu gosto de você...

- Roger... quando você fala assim eu me sinto pressionada...

- Tá bom Karina. Eu não vou mais falar com você sobre os meus sentimentos.

- Eu não falei isso para você ficar se fazendo de vítima. Que saco esse seu narcisismo! Só quero que a gente se divirta um pouco, poxa. Estou tão confusa na minha vida e você só pensa em você! Eu gosto das nossas conversas. O Terry às vezes é tão distante e tão... tão "normal". E... e você é tão querido e íntimo. Quando me sinto sozinha penso muito em você, sabe? Eu quero voltar a rir das coisas que você fala. Eu gosto do seu humor inteligente e neurótico.

- Sei... quer que eu seja o seu "personal Woody Allen"...

- Ah ah ah... ah, Roger, você não chega aos pés do Woody Allen, mas eu gosto de você mesmo assim. E pare de ficar se depreciando, ok?

- Eu não acredito que você ame o Terry. Ele é um... um idiota, Karina! Poxa, não percebe? E o cara usa tiara no cabelo! É ridículo!

- Roger... eu não quero e não posso falar sobre isso... e o Terry... ele não é nenhum idiota, ok? Ele é um ator extraordinário. Será um sucesso... e... e não sei se terei espaço na vida dele, sinceramente... mas... eu não quero falar sobre o Terry... você tem mania de ficar se comparando a ele... e, sinceramente, não há comparação possível entre vocês...

- O que quer dizer com isso? Que ele é melhor do que eu só porque é mais alto, mais forte, tem mais dinheiro e é melhor artista?

- Roger...

- Ah sei, ah sei... e é um grande amante, não é?

- Roger... vamos mudar de assunto?

- Ah, tudo bem... eu... eu só vim aqui pra lhe dizer que... que eu vou para as montanhas... eu e a gata Morgana... adeus, Karina...

- Ah ah ah... que história é essa, Roger? Para as montanhas?


***

E agora, depois de anos de andanças, o solitário das montanhas regressa ao seu apartamento e vê que tudo está exatamente como no dia em que saiu. Nem poeira há. A calma silenciosa do ambiente determina que só ele e Morgana vivem. "O resto é cenário", pensa Roger. Sente um medo no peito e olha para a janela do apartamento de Karina. Está fechada e inerte.

Karina e Terry não moram mais ali. Separaram-se e voltaram um para o outro exatamente vinte vezes. A vigésima volta foi comemorada num jantar em grande estilo, cheio de convidados famosos e bem sucedidos em suas carreiras.

E Karina não lembrou de convidar Roger.


(o desenho é da minha amiga Vê)

19 Janeiro 2008

Ainda sem saber o que seguro nas mãos



Uma foto que mandaram pra mim, ontem...
É de 1973...
O meu último ano na Terra...

Sim, eu sou o garoto de camisa vermelha com estampa do Tio Patinhas, numa festa animada, num canto solitário, numa performance individual, fazendo uma pose espetacular, segurando não sei o que nas mãos...

Foi assim que eu saí do meu planeta.
Foram minhas últimas referências.

E é assim que voltei. E posso perceber-me, hoje, como todos me percebem. Numa festa animada, fazendo uma pose espetacular, numa performance individual, num canto solitário...

E ainda sem saber o que seguro nas mãos.

13 Janeiro 2008

Ferrugem nos ossos da solidão



Fearcold Stone fala consigo mesmo enquanto passeia na praia deserta num dia de chuva, onde lembra de Carolina Heart, a belíssima mulher com quem partilhou surpreendente amizade durante os dias nublados do verão até que, abruptamente, ela optasse por partir para dar prioridade à carreira:

"então, curiosamente, senti sua falta ali no meio do meu ríspido isolamento marítimo...
somente você toparia ir à praia comigo debaixo da mais intensa chuva do ano...
isso me deu uma pequena, porém bonita, tristeza no peito...
foram horas de praia, ninguém e chuva...
e mergulhos do meu coração no oceano...
foi como um batismo de sentimentos que não conheço...
sentei lá nas pedras à beira do mar incrível sob a chuva fiel e persistente,
atirando-me nelas como um louco encharcado de cansaço...
olhei com audácia para o céu de chumbo sobre mim... e disse:

- chuva... desculpe... passei dias e dias falando mal de você...
e só você está comigo agora...
e mesmo quem quisesse estar comigo aqui, não cairia do céu como você..."

31 Dezembro 2007

Feliz Ano Novo, Mme. Mansbridge



A Sra. Flaminea Flemming Mansbridge é uma viúva amarga, infeliz, antipática, arrogante, solitária e campeã britânica de futebol de mesa.

Está numa festa de ano novo no divertido clube da terceira idade Pawning Old Barney, em Londres, acomapanhada do seu gato mal humorado, o Muckferry.

Ela não conversa com ninguém na comemoração, tampouco faz questão de cumprimentar, sorrir ou ser simpática com ninguém, o que irrita profundamente as pessoas ao redor. E evidencia-se um crescente mal estar com a presença de Flamínea naquela festa.

Depois da euforia da meia-noite, a senhora Timberley Wishquerry Bluth, que já tivera 18 namorados desde que ficou viúva, aos 82 anos de idade, sendo abandonada por todos eles, diz para Flamímea, com olhar de agressivo desprezo:

"O que posso lhe dizer, se a senhora me permite, é que a pior solidão não é a solidão de não ser amada. A pior solidão, é a solidão de quem não ama ! Feliz ano novo, Madame Mansbridge."

Flaminea beberica seu uísque, olha para sua crítica e solta uma sonora gargalhada cheia de estridência e catarro na garganta. Silencia, ainda olhando para sua opositora. Então sopra sua cornetinha, deliciando-se com o barulho ridículo dela e com a expressão ofendida da Sra. Timberley. E dá outra gargalhada:

"grrrrragragragragragra !!! grrrrragragragragragra !!!"

23 Dezembro 2007

O espírito de natal



Andrew Papaffuz Limonge é um solitário e anônimo homem da cidade grande, empregado de uma fábrica de brinquedos, que, após um ano de desencantos e azares, passa a noite de natal sozinho caminhando na rua, desejando encontrar o Papai Noel.

E o encontra.

Mas o velho está melancólico e com o pensamento distante. Os dois se olham por um instante. Andrew espera por uma mensagem, por uma esperança, por um milagre. Papai Noel permanece inexpressivo. E se afasta, com seu andar arrastado, sem nada dizer.

Meia-noite. É natal...

Cansado e decepcionado, Andrew senta num banco de praça enquanto ouve as famílias, de dentro de suas casas, festejarem. Então, ao seu lado, surge um espírito triste e invisível: o espírito de natal.

Ele diz a Andrew:

"Louco, Papai Noel ficou louco.
Ele sobe pelas paredes em busca de crianças contentes.
Ele descobre que as famílias estão doentes.
Ele sente o que todos sentem.
Os medos antigos, as dores recentes, os sonhos esquecidos.
Ele anda pela rua como um mendigo novinho em folha.
Ele canta as canções de sua escolha.
Mas ninguém acredita nele.
Ele bebe e lambuza sua barba branca...
E descobre que o mundo o desencanta.
Ele viu os olhos das pessoas tristes e desanimadas.
Ele ouviu os lamentos das pessoas abandonadas.
Ele carrega um saco de presentes sem alma.
Ele sabe que o mundo precisa de amor e calma.
Ele tem saudade e insônia.
E quer voltar para a Lapônia."

21 Dezembro 2007

Diário de Bordo II



"O destino é uma echarpe flutuando no escuro. Ela flutua-se em si em sua cor predileta. Sua epopéia cósmica é completa. A echarpe lilás-se, sucumbindo a uma necessidade pictórica artisticamente inexprimível. Meus olhos nus compreendem o espectro dos seus sentimentos suaves e densos. Mas as palavras são pesadas demais para descrever a leveza de sua proposta onírica. Tudo se passa no espaço vasto que gira invisível ao redor do meu centro sem lugar. Seja onde estiver, o que passou-me não tem passado. O que virá já aconteceu. O meu presente é um rumo absolvido. O meu passado é um futuro perdido. O meu futuro é uma echarpe no escuro.

Meu coração continua..."


Trecho de "O universo é a menor coisa que existe", o próximo livro do Astronauta Roger.­

14 Dezembro 2007

Ruined Arrogance



A relação entre os integrantes de uma banda de rock em Londres, nos anos 60 é artisticamente tensa.

O tecladista Gerald Best é deprimido, inseguro e arrogante. O baixista Phill Donney é autoritário, manipulador e arrogante. O baterista Peter Arnold é incompetente, falso e arrogante. E o guitarrista Clifford Laud é louco, viciado e arrogante.

No fim, Gerald fica com a arrogante esposa de Phil. Phil fica com a arrogante namorada de Peter. Peter fica com a arrogante mãe de Clifford. E Clifford abandona o arrogante grupo ao conseguir um emprego de arquivista no arrogante Palácio de Buckingham.

E a banda acaba, apesar do estrondoso sucesso, no arrogante circuito underground londrino, do seu grande e arrogante hit "My Son Was An Awkward Sadomasochist".

01 Dezembro 2007

Calor, carinho e futuro.



O computador de bordo Messias Machine, da nave branca Interestellar Overdrive, acaba de detectar um asteróide. Deu a ele, em minha homenagem, o nome "Asteróide Astronauta Roger".

De albedo fraco, é um pedregulho inútil, enrugado e silencioso. Percorrendo com disciplina sua órbita excentricamente elíptica, o insignificante planetésimo adentra o sistema solar num surto de violência anônima e ineficaz, e em seu ciclo aparentemente eterno e incansável, aproxima-se da Terra a cada milhão de anos.

Provavelmente não existe no universo um objeto tão claramente solitário e sem esperanças. Suas perspectivas são de um eterno retorno sem evolução, até que evapore, espalhando suas particulas no veludo negro que forra o caixão invisível do espaço-tempo.

E nem do amor que nunca teve ele terá lembranças.

Será a condição de astronauta ?
Que distância amarga !
És terra, fogo, ar e água.
Sou espaço, vácuo e nada.
Nada...
Nada, nada, nada...
Nada que este mar nunca acaba.
Será a condição de astronauta ?

Pois nesta solidão ampla em que me encontro, minhas perspectivas cruelmente destituídas de calor, carinho e futuro, permitem-me imaginar meu casamento com a "Plenitude Vazia". Teríamos três filhos: "Nada Herbert Jones", "Nunca Herbert Jones" e "Ninguém Herbert Jones".

Nada teria calor.
Nunca teria carinho.
Ninguém teria futuro.

23 Novembro 2007

Apenas um passo



Quantas mágoas espalhei pelo espaço como estrelas tristes criadas no meu peito descoberto, lançadas ao vácuo para que fossem purificadas por seu próprio calor santificado e infantil.

Mas o que iluminou meu caminho foi um lamento profundo de saudade, pleno de ausência e infinito em desencanto. O calor que tive veio do meu pranto. Um canto de dor viajou pelo cosmos a bordo da nave branca. Certo de que tudo é incerto quero pisar num solo sólido e constante. E por um instante sofrer como todos sofrem, na angústia dourada de viver perdido em Earth Planet.

Admirável mundo novo.
Não há mais tempo para nos afastarmos.

Um passo adiante...
E sentirei o paralelepípedo frio sustentando meu mundo.
Caminhando serei mágico.
O que foi trágico será esquecido.
O que for meta será vencido.

E ao olhar para cima por um segundo, serei o profeta do meu destino destemido. Um abraço amigo para me tornar vivo. Alguém pra caminhar comigo. E perdão para o meu cansaço.

Apenas um passo.

Um pequeno passo para um homem.
Um gigantesco passo para um astronauta...

20 Novembro 2007



Aparece lá, e tal...
É a minha despedida da literatura.
Vou dedicar minhas energias restantes à luta pela preservação dos flamingos.

16 Novembro 2007

A Editora



E lá estava eu, visitando pela primeira vez o casarão da editora do meu livro. E sabe ? Era estranho. A dona da editora morava na própria editora. Fui lá a pedido dela, para a gente negociar um novo contrato. Eu estava surpreso e meio envergonhado. Afinal meu primeiro e único livro foi um fracasso total de vendas. Ainda assim ela queria me dar um aumento. Mas, juro, eu não fui lá por dinheiro. Eu queria, não tente me entender, apenas tentar "compreender" a editora.

Acho que cheguei antes das seis da manhã. E a minha chefe estava com vestes formais. Linda como uma aeromoça. Recebeu-me com profissionalismo, sorriso e distância. Começou a mostrar as salas da editora. Uma mansão no centro da cidade, que antigamente pertenceu a uma familia nobre. Percebi, imediatamente, que apesar da casa ser espetacular, era a editora que prendia quase que a totalidade da minha atenção. Ela mostrou-me tudo com disposição e fria simpatia. Salas gigantescas, moveis antigos belíssimos, relíquias nas mesinhas e prateleiras, tapeçaria, almofadas, quadros, livros. Tudo em vivas cores e odor de história.

Estranhamente, a medida que subíamos andares, novos andares surgiam. A casa ficava cada vez maior. As salas multiplicavam-se. Então eu perguntei, tentando parecer inteligente para compensar o fato de estar num lugar tão requintado usando camiseta, jeans e tênis: "como eu posso compreender o seu negócio se ele muda o tempo todo ?" Ela respondeu algo a ver com "não compreender as coisas pelas definições mas pelos sentidos e sentimentos." Achei a resposta desafiadora e sexy.

Não sei se pelo fato dela estar usando óculos, ou por, inexplicavelmente, estar anoitecendo às 6 da manhã, e por perceber-se uma eletricidade tensa na solidão de nós dois naquele museu afrodisíaco, o fato é que quis beijá-la. Esquecido de minha timidez, nos degraus inseguros da escada, tentei abraçá-la. Mas ela travou meus movimentos, me deu um tapa, riu divertidamente e me disse: "seja mais profissional, Roger."

Acho que dei um discurso do tipo: "eu nunca quis ser um escritor profissional, você sabe muito bem... a literatura é um pretexto para eu ser aceito pelas pessoas e para tentar ter um contato com a transcendência." Ingenuamente pensei que tinha impressionado ela com essa pérola, mas não. Ela permanecia com aqueles óculos, parecendo a pessoa mais intelectual do mundo, me cedendo um sorriso compreensivo mas amedrontador.

Ela estava em casa, nada poderia assombrá-la.
Ela era o drácula, eu era apenas um escritor.

"Permita-se sonhar, Roger... você é um grande autor, um gênio." Ela percebia minha baixa auto-estima, em franca dificuldade, subindo a escadaria da editora. Eu respondi ofegante e com calculado desânimo: "não sou eu que permito meus sonhos... são meus sonhos que me permitem... e... e anote essa frase, ok ? achei lindo isso... anote essa frase... não por mim, nem por você, mas pela humanidade." A megalomania sempre foi o meu melhor humor, e consegui fazer a "senhorita total segurança" rir de mim pela primeira vez, e a escada chegou ao fim.

A medida que passávamos pelas salas da mansão misteriosa, nossa proximidade se tornava mais franca. Ela comentou: "E sobre os textos... hum... acho que todos os seus textos são encenáveis... textos de ver, eu diria... muitas vezes, ao ler o seu livro, eu pensava claramente em um teatro... e a leitura é dinâmica, já lhe disse... e isso favorece muito o texto em relação ao teatro... monotonia de leitura é tudo que o teu texto não tem... seguramente, Roger."

Percebi-a mais sensível, apesar de ela ainda estar usando aqueles óculos que escondiam seu olhar do mundo. Por algum motivo me mostrou seu quarto. A iluminação pública entrava pela janela, propondo ao cenário um contraste tenso e sexual. Fiquei impressionado com a quantidade de bichinhos de pelúcia. Milhares amontoados, de todas as formas e tamanhos, num quarto que a princípio parecia pequeno mas que, submetido a um olhar mais profundo, era infinito. Ela me mostrou os bichinhos com desdém: "ah, isso aí é bobagem do meu tempo de menina, Roger, não dá bola." Então tirou os óculos e viu os bichinhos de forma diferente. Eles ficavam mais coloridos, compreensivos e ternos. Mas... eu é que via isso através dos olhos dela ! Como eu pude ver através dos olhos dela ? Será que é a sina de todo autor em relação à sua editora ?

Mas ao vê-la descobri que não estava mais com a roupa formal de quando me recebeu, e sim com uma baby look azul clara e uma calça de abrigo rasgada no joelho. E havia aquela mistura de luz de velas e a névoa inexplicável, a escuridão sedutora, a visão turva. Então a beijei e nos atiramos cama, dando tapas para afastar os bichinhos de pelúcia.

E dos movimentos confusos e ardorosos de nós dois, só uma coisa se distingüia: a volúpia.

Ela levantou-se, recomposta, ainda ofegante, mas decidida a continuar o que achava importante e, nas palavras dela, "profissional". Recolocou seu traje de trabalho e tomou-me pelo braço. Eu alertei que ela estava sem os óculos. "Eu enchergo melhor sem eles, vem comigo", disse ela, com sofisticada convicção.

Subimos uma pequena e perigosa escada metálica em espiral até chegarmos ao terraço da casa. Um lugar lindo e romanticamente iluminado sob um céu estrelado. Ela me mostrou várias salas adjuntas ao terraço, onde funciona, verdadeiramente, sua fábrica cultural. E havia movimento, gente e trabalho. Uma sala cheia de livros e papéis, com crianças pesquisando. Um escritório com moças bonitas digitando em seus computadores, todas com aqueles mesmos óculos. Uma sala com um senhor sentado, sozinho, pensando. E, enfim, um pequeno teatro com atores ensaiando uma peça.

"Dei um texto seu pra eles ensaiarem, Roger... eu fiz isso pra ver se o teu texto finciona comercialmente... ocorre, sempre, algo curioso: os atores riem quando o texto é triste e ficam tristes quando o texto é engraçado." Ela estava irritada com o fato deles não compreenderem bem o meu texto. E esse sentimento de compreensão eu achei tão querido que me deu vontade de beijá-la. Porque eu já havia dito a ela que eu não queria ser amado, e sim compreendido. E a compreensão, acho, é um amor num andar mais elevado. E, de fato, estávamos no terraço.

Naquele momento os atores estavam encenando um conto meu chamado "A distância é nossa maior herança".

- Eu ? beijar você ? não sei se tenho segurança para fazer isso... quem sabe eu comece a rir... ou a chorar... ou a tirar a roupa... e começar a dançar charleston... e dançar charleston nu é, sumamente, constrangedor... beijar você, assim, repentinamente... acho que você me daria um tabefe.

- Eu nunca te daria um tabefe, Roger, tenha certeza disso

- Como assim ? eu quero meu tabefe, sim ! muito melhor do que você me dizer algo do tipo: "ei, ei...? ei ... peraí, cara... você está confundindo as coisas... eu... eu vou embora, ok ? outra hora a gente se fala..."

- Ahahahah... ok, Roger, então se você me beijar, eu darei o tabefe.

- Obrigado... sem o tabefe me sentirei um chato inconveniente... com o tabefe me sentirei um canalha.

- Você está apenas imaginando uma cena, Roger... não creio que vá me beijar no mundo real.

- Sonho e mundo real são duas instâncias igualmente ilusórias... real, pra mim, só a literatura...

- Isso é puro charme... você é puro charme, Roger ! que saco.

Os atores começaram a rir, interrompendo o ensaio. A editora fez uma expressão de desgosto, mas olhou pra mim sorrindo, querendo mudar de assunto: "e então, Roger ? o que tem pra mim ?". Eu não tinha nada, entao inventei na hora: "tenho um conto pronto na minha cabeça, só falta passar para o papel... com minha antiga personagem, a Catherine Pin Campden, sabe ? em que ela bateu com a cabeça durante o Tsunami na Tailândia... e depois de acordar do coma pensava estar na Alemanha dos anos 30... chama-se 'O Reich de Cathy'.

Ela adorou: "Ótimo, Roger ! traz pra mim esse ? você sabe que isto não é um sonho, não é ? sabe que eu estarei sempre aqui, de braços abertos para as suas idéias."

Então nos despedimos afetivamente. Eu estava me sentindo como um Kafka erotizado. E ela estava de óculos, novamente. Linda como a editora dos meus sonhos.

(foto de Henri Cartier-Bresson)

07 Novembro 2007

The Red Man



John Scarlat, um farmacêutico da Florida, devido a um fenômeno incompreensível, fica vermelho quando exposto ao sol. Ridicularizado por todos, "o camarão americano" está cada vez mais isolado da sociedade.

Decidido a livrar-se desse tormento rubro, ele encontra conforto no V.A., os "Vermelhos Anônimos", onde conhece Clarissa Pepper, uma ex-vermelhinha que, graças ao afetivo e permanente apoio do grupo, já está num estágio mais para o laranja. Ela o estimula a reagir e reerguer-se existencialmente.

E ele a obedece à risca, principalmente porque a marquinha de biquini dela é, sinceramente, espetacular.

Em poucas semanas Clarissa Pepper e John Scarlat estão branquinhos e apaixonados, caminhando juntos e confiantes nas ruas de Jacksonville, sem temer o sol escaldante que os submete à tentação pigmentar de corarem-se novamente.

E beijam-se, epidermicamente alvos, atrapalhando o trânsito.

Porque na verdade, como disse o próprio John numa das reuniões do V.A., "o amor é um filtro solar fator 250". Ou seja, é uma coisa meio melequenta e grudenta, mas que permite que a gente durma melhor de noite. Saca ?

09 Outubro 2007

Ich lieb dich, Helga



Adam Goeblich Matthaus, um romancista germânico, após o fracasso de seu último livro, "Histórias Proibidas de Madre Cunegundes", cai em desânimo profundo e experimenta grave degeneração fisica, ficando psicologicamente tetraplégico.

A sua heróica reabilitação só é possível quando sua criada, Helga Köenitz, por quem Adam está verdadeiramente apaixonado, lhe dá um ultimato:

- Roger ! Agora chega de frescura, uma vez !

- Mas... mas Helga ! Que insurgência é essa ? Pra começar eu sou seu patrão, uma vez ! E pra terminar meu nome não é Roger, é Adam, uma vez !

- Ou você levanta agora mesmo desta cadeira e volta a caminhar ou proibo-o de continuar postando no fotolog, uma vez !


Adam, humildemente, submete-se à ordem de sua criada. Levanta, dá três passos com melodramático esforço e atira-se no abraço da mulher que ama.

Os dois se casam e vão viver na Bavária, felizes e apaixonados. Helga permite que Adam use a internete apenas uma hora por dia. Ele obedece, bem direitinho, bem bonitinho. E ela sorri, contente e se sentindo amada, valorizada... saca ?

14 Setembro 2007

Kasutera Honshu



Ópera japonesa "Kasutera Honshu" ("O Castelo de Honshu").

Holdstwin Toppelstone Claybourgh, um fracassado escritor do País de Gales, conhece, no Orkut, Kyoko Taito Matsushita, filha de rica familia da nobreza do Japão. Os dois apaixonam-se francamente, e casam com convicção. Decidem viver em Nagoya, na luxuosa propriedade dos Matsushita, apesar dos pais de Kyoko considerarem Holdstwin um "um vagabundo incompetente". No fim, diante dos empregados e da gata siamesa deles, a Hawata, o casal têm uma discussão crítica, conforme a ária do epílogo (com subseqüente tradução):

- Ka da karu Koyko kiminaru su kushimi
(não dá mais pra mim, Kyoko, na boa... sua família me odeia... e agora o seu pai me despediu da fábrica dele ! e agora ? vou viver de quê ? eu não quero ser sustentado por sua família... não quero viver com os Matsushita, vocês todos odeiam o Grêmio !)

- Ho huko ya hoya Roger hadu kori su koyamah
(porra, Roger, você sabe muito bem como isso começou ! não tinha nada que ganhar do papai aquela partida de botão ! e eu tinha avisado que isso seria uma tremenda afronta aos costumes locais !)

- Kiyn lo sa sayaku Kyoko mahadu kuniki baha dushi nidah
(eu sabia ! eu sabia que nunca ía dar certo ! na internete a gente se amava, Kyoko... mas minha vida em Nagoya foi uma merda... ok, eu adorei nossos momentos... o casamento no altar de Higashi Honganji, nossas visitas ao museu de arte Tokugawa, nossos passeios no parque de Higashiyama... e... ah... quando a gente transava escondidos no castelo de Honshu... era tão lindo né ? só que depois tudo deu errado, como sempre ne minha vida... e agora... eu... eu vou embora... eu amo você... mas preciso voltar para o meu mundo, em Cardiff, País de Gales...)

- Yonidah Ya haku Roger Hadaru ho shida kushi haro kimi dah
(você sempre foi muito cético, Roger... nunca quis acreditar no amor... nunca confiou na felicidade... e... e eu acho que só veio até aqui porque eu sou gostosinha...)

- Kyoko yuha nah baru huni dah shimi kura
(não tenho culpa por ser cético, Kyoko ! eu não tinha nem três anos de vida e meus pais me disseram: "papai noel é apenas uma alegoria, Roger"... sabe lá o que é aguentar tal dose de realismo nessa idade ? e além disso, poucos meses depois, eu bati com a cabeça... ah, eu já te contei isso mil vezes...)

- hi hi hi hi hi hi hu yuky yo ho tumah maruki nikomayo huda Roger
(ahahahahah... que bonitinho ! todo lesado ! vem aqui, Roger... não quero brigar com você... eu até estive pensando... e... e se eu for com você e vivermos, só nós dois, em Cardiff ? você... me aceitaria ?)

- ho ho ho ho Kyoko ki a fu de
(oh ! que legal Kyoko ! jura ? claro que aceito ! é o meu grande sonho ! eu e você no meu ap no centro de Cardiff ! e podemos levar a gata Hawata ! será um final feliz ! eu amo você, Kyoko ! e poderemos transar no pedalinho do lago de Harrington Park ! a perversão dos nossos sonhos !)

- hi hi hi hi hi hi
(ahahahahahah)

12 Setembro 2007

Green Valley



As travessuras de Gecco Boy em Green Valley, onde vive com seu tio Berne, guarda florestal. A relação com Barbedo River, em cujas margens faz reflexões tranqüilas sobre a existência. A amizade com o cavalo Speed Jumbo. Os conselhos que ouve da vaca Clarividence. As brincadeiras com o cachorrinho Forky. Os diálogos com o gato Sabbath. Os ensinamentos admiráveis da formiguinha Seesaw. Sua ligação espiritual com a árvore Life.

Ninguém é mais feliz do que Gecco Boy em Green Valley, às margens de Barbedo River !

* * *

Mas um temporal perturba este mundo encantado. O casal Hershey, de Nova York, visita o local. Com eles a pequena e graciosa filha única: Rita Hershey. Ela tem malícia e sex appeal. Dotada de uma inocência provocante e fala lasciva, é a alma feminina que marcará para sempre a vida de Gecco Boy:

Foi surpreendente aquela mudança abrupta de clima. Os dias estavam tão lindos e calmos. Agora eu via relâmpagos no céu, e nuvens de violência. Uma tempestade inexplicável se aproximava com ares de ameaça. Forky estava assustado. Sabbath sumiu. Seesaw levou mantimentos para o seu formigueiro. Clarividence estava inquieta. Speed Jumbo corria para todos os lados. Barbedo River estava agitado. Apenas a árvore Life permanecia impassível. Quando voltei para a cabana, tio Berne conversava com um casal de turistas que procuravam um local para passar uma temporada em Green Valley. E uma garota estava com eles. Ela me olhou demoradamente e disse com um sorriso desafiador:

"Oi, sou Rita Hershey, qual é o seu nome ?"

Fiquei sem reação. Meu tio sacudiu meu braço com impaciência:

"Gecco ? Responde a menina ! Seja educado !"

Meu Deus, tantas coisas lindas eu vi na minha vida. As paisagens vigorosas do bosque verde. O sol surgindo com esplendor e arte atrás do Monte Querry e mais tarde desaparecendo no horizonte com suas cores poéticas refletidas nas águas límpidas de Barbedo River. A lua imensa das noites estreladas e silenciosas. Os animais que crescem e falam comigo. A mata cheia de vida e ensinamentos com suas árvores imensas, suas flores graciosas, sua vegetação intensa e seu odor tranqüilo. A música da natureza. Sim, eu passei a vida cercado de beleza. Mas nunca havia visto algo tão perfeito quanto o rosto de Rita Hershey. E quando um sutil vento irrompeu a cabana, agitando sua delicada franja e expondo ainda mais seus olhos que me observavam com doçura e curiosidade, concluí que jamais minha vida teria sentido se Rita Hershey não estivesse perto de mim...

"Ãhn... eu... oi... oi, senhorita Rita Hershey... eu... meu nome é Roger Waltton McAllister... mas... pode me chamar de Gecco..."

"Hi hi hi hi... você fala engraçado !"

Rita Hershey e Gecco Boy iniciam um romance juvenil, cheio de alegria e descobertas, abençoados pela florida primavera de Green Valley. Mas a temporada de turismo termina e Rita vai embora com os pais, de volta à cidade. Gecco fica profundamente perturbado, e seu comportamento sofre drásticas modificações...

* * *

"Oh, meu velho amigo Barbedo River. Eu a amo ! Ela é meio sem vergonha, sei. Até roubou dinheiro da carteira da mãe dela pra gente tomar sorvete lá no Ted's. Mas eu a amo. Você tinha que ver ela tomando aquele sorvete de morango... Eu a amo, eu a amo ! Eu quero ir pra cidade grande procurá-la."

* * *

"Gecco, não perca tempo com essa menina, já lhe disse que você tem que casar com a filha dos Merrick, ela sim será uma boa esposa pra você. Nova York é uma cidade neurótica, cheia de pessoas que jamais se importarão com você !"

"Qualé, tio Berne ? Como pode pretender me dar conselhos sobre o amor ? Não namora ninguém faz uns 40 anos ! Não tem a mínima idéia do que eu estou sentindo ! A mínima idéia ! E quer saber ? Eu não pretendo ser um jeca a vida inteira como o senhor !"


* * *

"Gecco, você está sendo apressado, não devia dar tanta confiança à paixão."

"Ah, sem essa, Speed Jumbo ! Fala isso porque a égua Lorylove deu o maior fora em você e ficou com aquele cavalo de corrida que é tri rico !"


* * *

"Gecco, Gecco. Isso não vai dar certo ! Essa menina não é correta ! Você é um menino tão bonzinho, e essa menina é uma malandra !"

"Que moralismo insuportável, Clarividence. Você é realmente uma vaca conservadora ! o Boi Hugo nunca deu a mínima pra você, pensa que eu não sei ? Agora que eu encontrei o amor da minha vida você tenta me reprimir. Quer que eu seja infeliz como você ?"

* * *

"Au, au, au !"

"Sai fora, Forky ! Eu não quero brincar, não me enche ! Porque não arranja uma cadelinha, hein ? Vai ficar pra sempre com essa cara de idiota ?"


* * *

"Miur..."

"É, gato Sabbath, eu tô sofrendo... Não consigo tirar Rita Hershey da minha cabeça ! É a gatinha da minha vida. Eu... eu vou embora daqui ! Eu vou procurá-la, eu a amo !"


* * *

"Gecco, você precisa construir a sua vida com trabalho e esforço, só então o amor virá com naturalidade e solidez."

"Seesaw, você nasceu pra ser formiga, mesmo ! Detesta o prazer. Sabe a cigarra Samantah ? Aquela que você disse que ia morrer de fome no inverno ? Pois é, ela foi para as praias do sul e fez um contrato milionário com uma grande gravadora e tem uma vida de pop star enquanto você tem uma existência insignificante ! Eu vou embora daqui, Seesaw ! eu vou procurar Rita ! eu a amo !"


* * *

"Gecco, garoto Gecco. Cuidado com os precipícios do destino..."

"Não enche minha paciência, árvore Life ! Você vive aí, parada. Não faz nada ! Eu não ! Eu quero amar, nem que pra isso eu tenha que me esborrachar no chão ! Antes cair num precipício do que ficar nesta contemplação inútil como você ! Você só dá valor à vida. Eu quero morrer por Rita !"


* * *

Inconformado e decidido, Gecco rompe com seu paraíso e vai procurar sua amada.

A ação passa para um futuro impreciso. Gecco Boy é um mendigo na periferia de Nova York. Ele e Rita viveram juntos por um tempo. Mas Rita teve um caso com um gigolô latino e expulsou Gecco do apartamento que ela tinha em Greenwich Village.

Agora, perdido nas frias ruas da metrópole insensível, ignorado por todos, nada neste homem lembra a felicidade do garoto que um dia viveu às margens de Barbedo River.

Barbudo, faminto e miserável, Gecco Boy volta para Green Valley...

Procura pelo tio Berne, mas ele já havia morrido...
Procura pelo cavalo Speed Jumbo, mas ele já havia morrido...
Procura pela vaca Clarividence, mas ela já havia morrido...
Também já haviam morrido o cachorrinho Forky, o gato Sabbath e a formiguinha Seesaw...
Barbedo River foi contido por uma impiedosa represa e agora não tem mais voz nem vontade...
Somente a árvore Life ainda estava lá.

Gecco Boy, doente e fraco, encosta-se nela. E ela o acolhe com carinho, firmeza e silêncio. O pobre homem, com seu coração triste e exausto, permanece alí sem nada dizer, sem nada pensar. Descansa e dorme aos pés da árvore da vida.

Até encontrar a morte no solo gentil de Green Valley.

01 Agosto 2007

O túmulo dos dias desistentes



Leslie Donald Pickwick, um famoso humorista, contrai grave e inexplicável doença e está condenado à morte. Amargurado e sem esperanças, abandona todos seus projetos profissionais e afetivos, tranca-se em seu apartamento e decide esperar o fim apenas na companhia de seu gato, o Wittgenstein, o único ser que reconhece sua tristeza, seu afeto e sua solidão.

30 anos depois, Leslie continua isolado em seu apartamento e mantém a mesma aparência, assim como seu gato siamês. Numa manhã igual a qualquer outra, percebe que o diagnóstico de sua morte, ao que parece, estava errado. Ele e Wittgenstein olham-se, assustados e surpresos com um despertar, assim, tão repentino.

Ele sai, corajosamente, para a rua. Quer retomar sua vida: suas amizades mais sinceras, sua carreira desejada, um novo amor, mais puro e permanente. Mas descobre que está invisível. Dramaticamente invisível. Ninguém mais o vê, ou o escuta.

E em nada ele consegue tocar.

Volta para casa carregando o peso desumano da frustração de suas expectativas, em busca do único lugar onde pode descansar. Mas não consegue abrir a porta do edifício. A chave não entra. Outras pessoas moram em seu apartamento. Há 30 anos.

E ele jamais saberá pra onde ir.

25 Julho 2007

Roy Phipps Dexterpacking



O cavalinho Roy Phipps Dexterpacking, de Gloucestershire, Inglaterra, desde menino, é muito apegado à mamãe égua Clara Phipps. É inteligente, educado e cabisbaixo. Não se sente parecido com os outros cavalos, com exceção de alguns que também gostam de rock progressivo. Roy não compreende quando um dia percebe que as egüinhas entraram no cio e começaram a se interessar por cavalos bagaceiros. Nessa época ele monta numa jovem e inexperiente égua chamada Catherine Pin Campden. Mas acha a experiência "vazia".

Décadas depois, o cavalinho Roy tem crinas grisalhas. Está com quase 40 anos. Durante um longo período ele ficou cego, devido a uma verminose, e teve um caso de amor com uma égua muito intensa chamada Herbenia Lancellot. Mas ela o traiu com um cavalo reprodutor, o Urco. Um veterinário visitou a fazenda e medicou o cavalinho Roy, que aos poucos recobrou a visão, ficando surpreso consigo mesmo ao perceber que Herbenia era, na verdade, uma vaca.

Os anos se passam e Roy torna-se um cavalo velho, cansado, mas intelectualmente produtivo e insistentemente caseiro. Mesmo sofrendo de grave depressão, apesar das doses cavalares de paroxetina, ele produz textos para as peças de teatro que semanalmente são encenadas na igreja do padre Bittencourt, um sujeito alcoólatra e risonho. Roy era um dramaturgo honesto, sensível e provocativo. Em uma de suas peças, onde um cavalo anglicano comete suicídio dentro de uma sorveteria, Roy não contou com a compreensão dos conservadores e foi banido da comunidade.

Roy adoece e vai para um asilo muito pobre. Durante anos ficou sob o cuidado abnegado de éguas enfermeiras. Percebeu que estava apaixonado por uma delas, a égua alemã Helga Güttenmitter, com quem conversava todas as tardes. Helga era ríspida, mas afetiva. Ela gostava dele, apesar de ficar muito braba quando Roy não queria comer a sopinha, ou quando ele aparecia com o pijama todo mijado.

Roy pediu Helga em casamento. Eram cavalos que atravessaram quase um século de paixões e frustrações. Mas ainda estavam inteiros. Roy insistia em ser otimista. A enfermeira Helga era mais prática e acreditava em frases do tipo "a vida é uma doença letal". Aceitou casar com Roy porque gostava das historinhas que ele contava. A cerimônia foi simples e anônima, celebrada pelo padre Bittencourt numa tarde nublada e fria no outono das vidas eqüinas e corajosas de Roy e Helga. Foram viver os últimos dias de suas vidas num estábulo humilde e confortável na propriedade do Sr. Blackmore.

Foi o período mais feliz da vida de Roy. Ele se sentiu amado e compreendido. Até fechar os olhos pela última vez, deitado no feno macio e jovem de seu derradeiro lar. Seu último olhar foi para a querida Helga, que não deixou que se concretizasse seu maior medo: morrer sozinho.

22 Julho 2007

My Name Is Karate



Thompson Portland, um intelectual frustrado e pedante, vive em Oklahoma, EUA, Sentindo a inutilidade de sua cultura e de suas teses brilhantes, decide tomar uma posição mais pragmática e corporal diante da vida.

Inicia um curso de katatê pela internete e aos poucos vai ganhando mais confiança. Nessa época ele conhece uma linda moça, a cantora Lucy Leave. Mas ele está num estado de tal agressividade que não sabe dar amor a ela.

Briga com os vizinhos por motivos fúteis, rompe com seus amigos da faculdade de filosofia, desiste de dar aulas sobre Kierkegaard, arruma confusões em bares e trabalha de segurança em bailes infantis, numa estúpida escalada de degradação da inteligência.

No ápice de seu fanatismo, decide mudar seu nome para, simplesmente, "Karate". Transforma-se, solitariamente, num ser violento e intolerante. Distante de todos. Cada vez mais egoísta, infeliz e brusco.

Visivelmente arrependido, não sabe que rumo dar à sua índole, e, após ser preso por tentar bater num juiz de vôlei, e não receber no cárcere a visita de nenhum amigo ou familiar, percebe-se no fundo do poço. Quando sai da cadeia, Thompson é um homem destruído por si mesmo.

No fim, encontra Lucy Leave, que reaproxima-se dele com candura e sem exigências, pois conhece o homem frágil, sensível e afetivo que ele vinha escondendo de si e dos outros esse tempo todo. Desta vez ele a recebe com um sorriso triste nos olhos...

Ela o ensina a ser feliz e grato. Ele, ainda que relutantemente, se apaixona por ela e decide amá-la sem fazer o uso de tipos. Um homem inteiro para uma mulher.

E, num surto de confiança no bom senso e no amor, abandona a arte marcial que o escraviza e também a vida de lutas no campo intelectual.

Graças à Lucy, sente-se forte e corajoso como jamais esteve. Thompson Portland, finalmente, está desarmado.

Pronto para amar e ser amado.



Thompson Portland, um intelectual frustrado e aluno de aulas de karatê pela internete está no pátio de sua casa se exibindo para, Lucy Leave, a mulher que aos poucos conquistará seu coração e irá mudar para sempre a sua vida.

Mas com as mulheres ele continua desajeitado e fora de si, exatamente como nos seus tempos de nerd intelectual:

"olha, Roger... você sabe que eu sou franca e perfecionista, né ? não me leve a mal, mas... bom... essa sua postura está totalmente errada, cara..."

"ah, já sei, Lucy, lá vem você me dizer, como todo mundo tem me dito, que eu sempre acreditei na força do argumento e que agora aderi ao argumento da força... é isso aí ! eu mudei, direito meu, ok ? inteligência pra mim não significa mais nada, e..."

"não Roger... eu estava falando, tecnicamente, dessa sua postura de luta, aí... ok, sei que é karatê e tal, e eu entendo mesmo é de kung fu... mas cara, seus braços estão mal colocados, sua barriga está pra frente, você está desprotegido, vulnerável e ridículo, não percebe ? sem falar que está sem apoio nas pernas... se levar qualquer golpezinho de alguém você cai na hora, meu..."

"você só me critica, Lucy, é impressionante ! e por favor, pára de me chamar de Roger, ok ? meu nome é Thompson Portland... aliás, era... agora meu nome é Karatê."

"ah é, esqueci... desculpa... mas enfim, Thomas, ou melhor, Karatê... como eu ía dizendo, além de você estar sem coordenação nenhuma nos movimentos, a sua musculatura está caidassa... mas é uma crítica construtiva, ok ? não fica com essa cara de brabo... meu signo é virgem, não consigo me segurar quando vejo algo completamente errado na minha frente..."

21 Julho 2007

Catherine Pin Campden e seu primeiro encontro depois da separação

Só eu vi a tristeza entrando pela porta do restaurante. Ela sempre vem sem aviso e, tal qual um espírito melancólico, influencia-me com sua persuasão invisível. Antes, isso me aborrecia, mas com o passar dos anos fui me convencendo de que suas aparições lúgubres e repentinas tinham a aura da inteligência e da inevitabilidade. Aceito-a, então, sem resistência, apesar de sua visita tornar meu ânimo cinza e meu olhar caído. Ela veio em minha direção, parou na minha frente e sorrimos, lânguidas e cúmplices. Eu a convidei, desnecessariamente, para sentar à mesa. Ela sentou e observamo-nos com intimidade, sabedoria e silêncio, esquecidas do tempo. O tempo é uma distância que aproximou nossos receios compartilhados e envelhecidos. A tristeza também tem rugas no seu semblante e está mais disposta a me compreender. Cada vez mais parecida comigo com sua tolerância mórbida e seu humor lacônico. Ela sabe que costumo ser como uma rocha protegida e fria, escondida no fundo insensível de um mar que ninguém conhece. Mas em sua presença percebo não existir nada capaz de me defender de todas as sensações que suponho ter. Ela não pretende me machucar, pois sua compaixão reconhece o meu coração suficientemente cansado. Talvez queira apenas que eu me descubra com os meus olhos verdadeiros. Diante dela, minhas palavras mudas ganham sentido e amparo: “Tristeza, aqui estás, eu sei. E sei o que me trazes, tanto quando sabes o que te escondo”. E como boa e velha amiga, ela despediu-se de mim, cedendo seu lugar àquele com quem eu tinha encontro marcado, o primeiro após minha separação. Ficou um vácuo breve e profundo, meu tédio e minha espera descrente à luz de velas.

Ele chega cheiroso, bem vestido e atrasado. Desculpa-se, com exagero. Toma minha mão, com habilidade. Curva-se, humilde. Beija meu rosto, com delicadeza. Puxa a cadeira, senta, sorri, continua sorrindo e não pára de sorrir. Chama o garçon, o cardápio, pede bebida cara e jantar farto. Fala, gesticula, impressiona. Ama a arte, o amor, a beleza e o prazer. Elogia meus olhos, meu cabelo e meu estilo. Compara-me a uma atriz italiana. Come, bebe, argumenta. Afirma sua preferência pelo conhecimento erudito. Mas não nega o seu gosto pelo popular. Faz desfilar sobre a mesa suas ecléticas e sofisticadas opções culturais: Picasso “fase azul”, Woody Allen “fase Bergman”, Elvis Presley “fase gordo”, Grêmio “fase Felipão”. Os tipos dele se sucedem: o “divertido e simpático”, o “intelectual e crítico”, o “democrático e compreensivo”, o “sentimental e ingênuo”. Confessa seus fracassos financeiros e afetivos. Enaltece seus sucessos com calculada modéstia. Do que ele me fala, nada me interessa. Mas me prende com insistência um mistério em seu olhar. No ápice de sua performance egocêntrica, ele diz: “Vamos parar de falar de mim, vamos falar de você. Fale-me, por exemplo, o que você acha de mim”. Rimos. Mas esfrio seu entusiasmo com crueldade: digo estar cansada, com sono, que é tarde e preciso ir pra casa. O jantar termina, as palavras se acalmam e os olhares se encontram. Ele fica triste, pede a conta, paga. Acompanha-me até meu carro. Antes da despedida, imponho minha sentença:

– Gostei de você.

Entro no carro, sento. Ele fecha a porta. Abro o vidro e ele pergunta:

– Qual deles?

– Aquele que estava, o tempo todo, escondido atrás das máscaras me olhando com ternura.

20 Julho 2007

O baixinho de Alá



Karl Dwarfdead Hempshire, um fracassado escritor irlandês, após ser ofendido por um protestante nas ruas de Belfast, decidiu converter-se ao islamismo. Mas sua namorada, a jovem e bela nutricionista Magda Wistles Konding, não compreendeu a lógica desta atitude:

- tá, Roger... qualé essa, agora, de se fantasiar de Bin Laden ? ficou brabinho só porque o cara te chamou de "zelador de maquete" ?

- tá errada ! ele me chamou de "lenhador de bonsai" !

- ahahahahahahahahahahahah ! ai, Roger... desculpe... ahahahahahah !

- ri, ingrata ! num mundo justo você estaria coberta por uma burka ! maldito ocidente e sua liberalidade, sobretudo aos piadistas ! vingarei-me ! jamais subestimem o poder de Alá ! serei o líder da cruzada final, Magda !

- ok, Roger, mas agora eu estou indo no Macdonalds, quer colocar uma roupa ocidental, vir comigo e deixar sua revolução islâmica pra depois ?

- e meu nome não é Roger, porra ! mas ok... vou com você... e, depois do meu último quarterão com queijo, passarei a ser chamado de "Salaham Mohid Jidah" ! e serei o mais famoso inimigo do ocidente !

- e sabe, Roger ? até que você ficou uma gracinha com essa barba... onde comprou ?

19 Julho 2007

El Guty



Gutierrez Puyol Callamazo, ou simplesmente El Guty, líder revolucionário de uma fictícia república centro-americana, tomou o poder de seu país com o único propósito de se exibir para Marya Iglesias de la Concepción, a namorada que o deixou e que ele ainda amava.

Mas conquistar um país é muito mais fácil do que reconquistar uma mulher. O intento de Gutierrez fracassou, pois logo após o golpe, Marya fugiu para Miami com Hernandez Cutchunffo, um traficante de tiaras.

Frustrado e cheio de mágoa, El Guty, que prometera democracia, justiça e paz para o seu povo, tornou-se um ditador severo, déspota e poser.

Desesperada e patriótica, Marya conseguiu telefonar para ele:

"olha Roger, eu sei que você está puto da cara comigo, mas poxa... você sempre foi tão gentil e pacífico... e era um poeta maravilhoso, Roger ! agora não passa de um autoritário cruel ! que piegas, isso ! você se tornou aquilo que sempre odiou... o povo odeia você ! e agora eu também odeio ! pare com isso, Roger !"

"sem essa, Marya ! o povo não me odeia ! eu sou o líder que eles sempre quiseram ! ditatura só desagrada viado, artista e jornalista ! danem-se eles !"

"seu canalha ! está fazendo isso por se sentir menos homem do que o Hernandez, só porque ele é alto e tem peito cabeludo."

"sua vaca ! não me fale deste jucasso ! você adorava minha sensibilidade e meu carinho... mas acabou ficando com um cara que antes de ir ao banheiro avisa em voz alta que vai cagar ! você disse que me amava, olhando nos meus olhos, naquela noite de luar em San Jacinto, lembra ? a noite mais verdadeira de nossas vidas, Marya... e no fim, preferiu viver com um bagaceiro em Miami..."

"Roger..."

"pois saiba que meu coração endureceu para sempre ! meus sentimentos se transformaram numa floresta petrificada ! e quem se importa ? ninguém ! você não imagina como é solitário ser um ditador ! quando eu volto para o meu palácio, volto sozinho... quando sento para jantar tem um prato só na mesa... então penso em você em cada ato do meu governo... e em cada lágrima do desgoverno do meu coração... eu... eu... eu vou desligar, Marya... tenho um povo para tiranizar, com licença."

"mas Roger..."

"e meu nome não é Roger, ok ? sou El Guty ! e se você esqueceu de mim, a história jamais esquecerá !"

18 Julho 2007

O destino é uma echarpe flutuando no espaço

Ela flutua-se em si em sua cor predileta. Sua epopéia cósmica é completa. A echarpe lilás-se, sucumbindo a uma necessidade pictórica artisticamente inexprimível. Meus olhos nus compreendem o espectro dos seus sentimentos suaves e densos. Mas as palavras são pesadas demais para descrever a leveza de sua proposta onírica. Tudo se passa no espaço vasto que gira invisível ao redor do meu centro sem lugar. Seja aonde estiver, o que passou-me não tem passado. O que virá já aconteceu. O meu presente é um rumo absolvido. O meu passado é um futuro perdido. O meu futuro é uma echarpe no escuro. Disse-me a dama do tempo, Lady Sometimes: "Não insista no passado teu coração inseguro. Não esqueça no futuro teu coração prematuro. Vive primeiro o presente do teu amor inteiro. E ama como se não existisse o tempo."